Quem acompanha meus artigos sabe o quão apreensivo fico quando o assunto é o setor sucroenergético e o quanto o governo brasileiro anterior, cuja presidente está sendo julgada por um processo de impeachment, prejudicou este que é uma das mais importantes áreas da economia brasileira, quebrando as empresas fornecedoras de equipamentos para o setor, com o equívoco de segurar o preço da gasolina, e, em consequência, prejudicou, também, a Petrobras em mais de US$ 25 bilhões. (Leia mais)
Agora, a esperança é que o novo governo olhe para o setor sucroenergético com a atenção devida, pois é necessário que se tome as medidas necessárias para a retomada do seu desenvolvimento econômico.
Duas notícias publicadas recentemente na mídia me chamaram a atenção. A primeira é do site novaCana.com, que relatou, no dia 23 de maio, que "na quarta-feira, 18, a Agência de Proteção Ambiental dos EUA (EPA, na sigla em inglês) propôs elevar o volume de etanol que refinarias do país devem misturar à gasolina em 2017 para 18,8 bilhões de galões (71,16 bilhões de litros) de etanol de milho e outros biocombustíveis".
Aqui, cabe um parênteses para novamente parabenizar o governo americano pela atenção que está dando aos combustíveis renováveis. Anos atrás, o Brasil era o maior produtor de etanol do mundo e, atualmente, não atinge 50% da produção americana, já que os EUA estão anunciando, para 2017, a mistura de 71,6 bilhões de litros de etanol à gasolina, enquanto a nossa produção não chega a 30 bilhões. "Isto é uma vergonha!", como diz o jornalista Boris Casoy.
A segunda notícia foi publicada em forma de artigo no brasilagro.com. O site apresentou um belo texto assinado por Elizabeth Farina, presidente-executiva, e Luciano Rodrigues, gerente de Economia e Análise Setorial da Unica, já publicado na Revista Agroanalysis, na edição de maio de 2016.
O artigo começa com um alerta: "A mídia e a própria Agência Nacional do Petróleo, Gás Natural e Biocombustíveis (ANP) retratam a preocupação com o suprimento no mercado brasileiro de combustíveis. Caso novos investimentos não sejam realizados, as importações de derivados pelo Brasil podem quadruplicar até 2030.
Na última década, com estímulos ao consumo e restrições à produção doméstica, o País, que chegou a ser autossuficiente na produção de derivados, passou a importar combustíveis para atender a demanda nacional.
A infraestrutura limitada para a importação e os riscos de abastecimento associados à dependência externa crescente evidenciam a necessidade de um plano de longo prazo para a matriz brasileira de combustíveis".
Tudo isso demanda longo prazo, principalmente quando um estudo da E4tech indica que, em 2030, mais de 90% da frota mundial utilizarão combustíveis líquidos.
Aí está a oportunidade para a retomada do nosso setor sucroenergético, pois o nosso etanol apresenta enorme potencial para substituir parte da importação prevista de combustível fóssil.
Como cita o artigo: (...) "Além de apresentar condição singular no mundo, com a possibilidade de expandir a área cultivada com cana-de-açúcar sem desmatar 1 único hectare, o País está prestes a presenciar avanços tecnológicos importantes na produção de etanol.
Esse potencial foi reconhecido no compromisso apresentado pelo Brasil às Nações Unidas na 21ª Conferência do Clima (COP-21), ratificado em 22 de abril deste ano, na cidade de Nova York. A proposta apresentada prevê que a participação dos biocombustíveis na matriz energética brasileira deve atingir 18% em 2030, com crescimento do consumo de etanol combustível para cerca de 50 bilhões de litros.
Este aumento reduziria as emissões de gases do efeito estufa em 571 milhões de toneladas equivalentes de gás carbônico: uma quantidade três vezes maior do que aquela emitida pelo desmatamento de florestas no País (175 milhões de toneladas de CO2 eq.).
A expansão da indústria canavieira para o atendimento da meta proposta promoveria a criação de mais de 700 mil novos postos de trabalho. Segundo estudo conduzido pela Faculdade de Medicina da Universidade de São Paulo (FMUSP), haveria uma economia superior a US$ 23 bilhões para os sistemas de saúde público e privado.
Esses dados mostram a posição privilegiada para ampliarmos a produção de etanol e garantirmos o abastecimento da frota crescente nos próximos anos".
Mas para isso é necessário se preparar: "Com um planejamento adequado, um arcabouço regulatório duradouro e políticas públicas na direção correta, o país do pré-sal e do etanol superará a discussão sobre importação de combustíveis para atendimento da demanda doméstica. No caso do bicombustível, será possível reduzir o déficit de combustível, mitigar os efeitos nefastos do aquecimento global e gerar benefícios secundários expressivos à sociedade, com investimentos e geração de empregos e renda."
Diante do acima exposto, vamos esperar que o atual governo não deixe acontecer o que aconteceu há quatro anos, quando o senador Waldemir Moka (PMDB-MS), que presidia a Comissão de Agricultura e Reforma Agrária do Senado Federal, disse em entrevista, à época, em Brasília, com o jornalista, fundador e editor do BrasilAgro, Ronaldo Knack, conforme artigo publicado no brasilagro.com dia 03.06.16. Ele se colocou à disposição da cadeia produtiva sucroenergética para resolver a crise de 2007: “Meu gabinete está de portas abertas. Exijo apenas uma cautela para que possamos atingir aos nossos objetivos (...) Tragam-me aqui os lobistas da Copersucar, da Raízen, da Unica e os dirigentes da Feplana e representantes da indústria de base. Deve haver sinergia e interesses comuns entre eles. Se todos falarem a mesma linguagem e defenderem os mesmos interesses, resolveremos rapidamente esta crise.”
Segundo Ronaldo Knack, "Desnecessário dizer que a sugestão do senador não evoluiu pois os interesses divergentes entre os elos da cadeia produtiva sucroenergética é que contribuíram, em muito, para que o setor desabasse e chegasse a situação em que se encontra".
Como uma continuação do artigo de Elizabeth Farina e Luciano Rodrigues, seguem importantes dados para o início da retomada do desenvolvimento econômico do setor sucroenergético, o que ocorreria com a construção das usinas necessárias para a produção do etanol e traria os benefícios elencados acima ao Brasil e ao mundo. O texto é do especialista engenheiro Paulo A. Soares:
“O custo de uma usina está difícil de ser estimado, pois, nos últimos 5 anos, não tivemos nenhum projeto novo ou orçado de 'Turn Key'.
Penso que, nas atuais condições, este valor ficaria em torno de R$ 480 milhões para a parte industrial e R$ 720 milhões para a agrícola, totalizando R$ 1.200,00 milhões/usina. Assim, para atingirmos 50 bilhões de litros/safra, isto é, um acréscimo de 20 bilhões em relação à safra atual, seriam necessárias aprox. 81 usinas de 1 milhão de litros/safra. Dessa forma, o investimento nas 81 usinas irá representar um montante de R$ 97 bilhões em aprox. 12 anos ou R$ 8,1 bilhões/ano só para o etanol.
Considerando que aprox. metade dessas usinas deva produzir açúcar, será necessário um investimento complementar da ordem de R$ 290 milhões/usina e mais R$ 720 milhões/usina da parte agrícola, isto é, um acréscimo de 1 bilhão/usina de aprox. 5 a 6 milhões/tc/safra.
Dessa maneira, teremos 40 usinas produzindo etanol e açúcar, com um investimento adicional na produção de açúcar de R$ 40 bilhões em 12 anos ou R$ 3,3 bilhões/ano para o açúcar. Totalizando: R$ 137 bilhões em 12 anos ou R$ 11,4 bilhões/ano.”
(Artigo escrito em 22/06/2016)
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