14/09/2015

O relatório para a retomada do setor sucroenergético

Em 18.01.14, elaborei um artigo com o título “A importância do setor sucroenergético”, citando outros artigos pedindo ao Governo a elaboração de políticas públicas adequadas para a retomada do desenvolvimento econômico do setor. Cito, também, que o Comitê Científico sobre Problemas Ambientais (Scope, na sigla em inglês), organização vinculada, entre outros, à Unesco e ao Unep, convidou a Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de São Paulo (Fapesp) para coordenar a produção de um relatório, analisando as questões de sustentabilidade das bioenergias. Para isso, a Fapesp montou um time de peso de cientistas e pesquisadores reconhecidos internacionalmente. (Leia mais)


Como bem disse o diretor da Agroicone, André Meloni Nassar, à época, "o relatório, quando publicado, derrubará muitos mitos sobre as interfaces entre bioenergia e sustentabilidade e deixará claro que a bioenergia tem um importante papel a cumprir nas questões ambientais, sociais e econômicas. Ele vai dar argumentos e fatos àqueles que acreditam que substituir fontes não renováveis por bioenergias é uma opção a ser seguida por todas as sociedades."

Pois bem. Depois de mais de um ano, o relatório ficou pronto e foi lançado na Fapesp, no dia 14.04.15, durante mesa-redonda sobre sustentabilidade. A publicação é resultado do trabalho de 137 especialistas de 24 países, recrutados em 82 instituições e coordenados por pesquisadores dos programas Fapesp de Pesquisa em Bioenergia (Bioen), Pesquisas em Caracterização, Conservação, Restauração e Uso Sustentável da Biodiversidade (Biota) e Mudanças Climáticas Globais (PFPMCG).

Tomo a liberdade de destacar alguns comentários e pontos do relatório, publicados no site da Agência Fapesp em 17.04.2015: "A bioenergia pode chegar a prover um quarto da energia mundial até 2050, reduzindo poluentes e a emissão de gases do efeito estufa e promovendo desenvolvimento sustentável, entre outros benefícios econômicos e sociais. (...) 'Além de ser considerada uma alternativa valiosa do ponto de vista da eficiência e da segurança, a bioenergia traz importantes contribuições no nível geopolítico por ser um recurso flexível e sustentável, contribuindo também para a mitigação das mudanças climáticas. Essas e outras vantagens da produção adequada de bioenergia são abordadas no relatório de forma aprofundada e cientificamente embasada', declarou Glaucia Mendes Souza, membro da coordenação do Bioen e coeditora da publicação. (...)

Jon Samseth, presidente do Scope, atribuiu a relevância do relatório para o desenvolvimento da bioenergia ao papel desempenhado pelo Brasil no setor e na comunidade científica internacional. 'O Brasil conta com as energias renováveis para suprir 41% das suas necessidades energéticas e com uma comunidade científica forte e cada vez mais relevante globalmente. Em torno dessa capacidade foi engajado um conjunto de especialistas de diversas áreas da ciência e regiões do mundo, resultando em um esforço sem precedentes para concentrar em uma única publicação todo o conhecimento disponível em bioenergia'. (...)

De acordo com Luiz Augusto Horta Nogueira, da Universidade Federal de Itajubá (Unifei), um dos editores associados e coautor de diversos capítulos do relatório, a América Latina e o Caribe apresentam excelentes condições para a produção de bioenergia. 'Cerca de 360 milhões de hectares de terras aptas para a agricultura de sequeiro estão disponíveis na região, o que corresponde a 37% do total mundial e mais de três vezes a área necessária para atender às necessidades alimentares do mundo. Se geridos de forma adequada e com a adoção de processos eficientes, 20% dessa área poderia produzir anualmente 24 exajoules (EJ) de biocombustíveis líquidos, o equivalente a 11 milhões de barris de petróleo por dia, mais do que a produção atual dos Estados Unidos ou da Arábia Saudita'. (...)

Paulo Artaxo, do Instituto de Física da Universidade de São Paulo (USP) e coautor do relatório, destacou no lançamento aspectos relacionados à segurança climática da bioenergia e seu papel para uma matriz energética sustentável diante de diversos desafios contemporâneos, como as mudanças climáticas. 'Os níveis do aquecimento global, superiores a 2°C, resultarão em impactos significativos e adversos sobre a biodiversidade, os ecossistemas naturais, o abastecimento de água, a produção de alimentos e a saúde. Quaisquer impactos potenciais de bioenergia devem ser encarados neste contexto', enfatizou. De acordo com Artaxo, a bioenergia é fundamental para a segurança ambiental e a mitigação das mudanças climáticas. 'Bioenergia pode ser economicamente benéfica, por exemplo, por possibilitar o aumento e a diversificação dos rendimentos agrícolas e o crescimento do emprego rural por meio da produção de biocombustíveis para uso doméstico ou mercados de exportação. Culturas bioenergéticas adequadamente gerenciadas podem ajudar a manter a qualidade do solo e até mesmo resultar em acúmulo de carbono, reduzindo assim a emissão de CO2”, explicou. (...)

De acordo com Patrícia Osseweijer, da Universidade Técnica de Delf, na Holanda, também coautora do relatório, mais uma vez a América Latina desempenha papel importante na expansão sustentável da bioenergia. (...)

Glaucia Mendes Souza lembrou que o relatório apresenta evidências de que 'a produção de bioenergia em áreas rurais pobres pode ajudar a melhorar o crescimento econômico, o desenvolvimento do mercado da bioenergia e a segurança alimentar'. No entanto, os benefícios dependem de políticas públicas que garantam sustentabilidade e distribuição igualitária dos benefícios. 'A ideia de que os biocombustíveis competem com a produção de alimentos e poderiam levar a aumento dos preços é baseada em suposições, não em fatos. O que se está descobrindo, e o relatório apresenta evidências disso, é que a bioenergia pode ter sinergias benéficas para a produção de alimentos, trazendo modernização para a agricultura, poder aquisitivo para regiões rurais e emprego onde muitas vezes a única fonte de recursos é a agricultura de subsistência', disse a pesquisadora.(...)"

O relatório foi editado com quase 800 páginas por Glaucia Mendes Souza, da Universidade de São Paulo (USP), Reynaldo L. Victoria, da Universidade de São Paulo (USP), Carlos A. Joly, da Universidade Estadual de Campinas e Luciano M. Verdade, da Universidade de São Paulo (USP), e tem tudo o que o Governo precisa para a elaboração de políticas públicas adequadas para a extinção de energias poluentes, substituindo-as por energias renováveis.

Sinceramente, espero que, desta vez, após ler o relatório, o Governo escute os seus cientistas.


(Artigo escrito em 15/09/2015)

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