No passado, eu admirava o PT, pela ética e disposição de luta como oposição. Mas, a partir da descoberta do “mensalão”, quando o PT mostrou a sua verdadeira intenção - manter-se no poder para sempre -, mudei de opinião. (Leia mais)
Em janeiro de 2014, elaborei um artigo com algumas excelentes entrevistas publicadas sobre petistas e ex-petistas desiludidos com o partido e seus dirigentes envolvidos nos processos do “mensalão”.
Para conhecimento dos leitores, repito partes de algumas dessas entrevistas:
“O PT tem todo o direito de continuar existindo juridicamente, mas o partido que eu ajudei a construir já morreu. E só participo de debates sobre ressurreição e reencarnação no âmbito religioso” (senadora Heloisa Helena, ex-petista).
“Diante das denúncias, os petistas optaram por uma saída jurídica, em detrimento de uma explicação política. Isso só é possível para quem já decidiu abandonar a vida pública. Esse comportamento reduziu as chances de sobrevivência do PT” (deputado federal Fernando Gabeira, ex-PT).
“O partido confundiu-se com o governo, tornou-se aparelho do Estado e acreditou que os fins justificavam os meios. Agora, só há salvação se os responsáveis por tudo isso forem punidos” (deputado federal José Eduardo Cardozo, PT).
"O PT errou: afastou a militância, pôs burocratas no governo e se entregou às vontades de Lula. E que vontades eram essas? Apenas a do poder pelo poder. Agora acabou. O castelo de areia ruiu” (economista e ex-militante petista Paulo de Tarso Venceslau).
“Lula sempre compartilhou da intimidade do grupo e foi o principal beneficiário de suas ações. Garante, porém, que nada sabia. Respeito quem acredita nisso, assim como respeito quem acredita em duendes” (César Benjamin, ex-PT).
Destaco trechos de entrevista feita pela editora Lucila Soares, da revista Veja, com o jurista e ex-petista com 25 anos de partido, Hélio Bicudo:
"Lucila: O senhor acredita que o Presidente Lula sabia dos fatos que estão vindo a público?
Bicudo: Lula é um homem centralizador. Sempre foi presidente de fato do partido. É impossível que ele não soubesse como os fundos estavam sendo angariados e gastos e quem era o responsável. Não é porque o sujeito é candidato a presidente que não precisa saber de dinheiro. Pelo contrário. É aí que começa a corrupção.
Lucila: Por que o Presidente não tomou nenhuma atitude para impedir que a situação chegasse aonde chegou?
Bicudo: Ele é mestre em esconder a sujeira embaixo do tapete. Sempre agiu dessa forma. Seu pronunciamento de sexta-feira confirma. Lula manteve a postura de que não faz parte disso e não abre espaço para uma discussão pública.”
Esta entrevista é mais longa, deixo a critério do leitor terminar sua leitura.
Agora, vamos para a inspiração deste artigo. Li na Folha de S. Paulo, de 20.09.15, na página A3, a “Carta aberta a Lula”, elaborada por Antonio Tito Costa, advogado que foi prefeito de São Bernardo do Campo e deputado federal pelo MDB/PMDB, um amigo de Lula que resolveu se manifestar após a descoberta de outro escândalo de corrupções: o “Lava Jato”.
Como a Carta é longa, para entendimento dos leitores, transcrevo somente alguns parágrafos:
“Meu caro Lula, permito-me escrever-lhe publicamente diante da impossibilidade de nos falarmos em pessoa, com a franqueza dos tempos de nossos seguidos contatos – você na presidência do Sindicato dos Metalúrgicos e eu prefeito de São Bernardo do Campo.(...)
Prefiro não falar dos dias em que o acolhi em minha chácara na pequena cidade de Torrinha, no interior de São Paulo, acobertando-o de perseguições do poder militar da época: você, Marisa, os filhos pequenos, vivendo horas de aflição e preocupantes expectativas.
Nem quero me lembrar das assembleias do sindicato, depois da intervenção no estádio de Vila Euclides, cedido pela Prefeitura de São Bernardo, fornecendo os aparatos possíveis de segurança.
Eram os primórdios de uma carreira vitoriosa como líder operário que chegou à Presidência da República por um partido político que prometia seriedade no manejo da coisa pública e logo decepcionou a todos pelos desvios de comportamento e por abusos na condução da máquina administrativa do Estado. (o grifo é nosso)
E aqui começa o seu desvio de uma carreira política que poderia tê-lo consagrado como autêntico líder para um país ainda em busca de desenvolvimento. Você deixou escapar das mãos a oportunidade histórica de liderar a implantação de urgentes mudanças estruturais na máquina do poder público.
Como bem lembrou Frei Betto, seu amigo e colaborador, você, liderando o Partido dos Trabalhadores, abandonou um projeto de Brasil para dedicar-se tão somente a um ambicioso e impatriótico projeto de poder, acomodando-se aos vícios da política tradicional. (o grifo é nosso)
Assim, seu partido – em seus alargados anos de governo, com indissimulada arrogância – optou por embrenhar-se na busca incessante, impatriótica e irresponsável do aparelhamento do Estado em favor de sua causa, que não é a do país. (o grifo é nosso)
Enganou-se você com a pretensão equivocada de implantar uma era de bonança artificial pela via perversa do paternalismo e do consumismo em favor das classes menos favorecidas, levando-as ao engano do qual agora se apercebem com natural desapontamento. (o grifo é nosso)
Por isso, meu caro Lula, segundo penso, você perdeu a oportunidade histórica de se tornar o verdadeiro líder de um país que ainda busca um caminho de prosperidade, igualdade e solidariedade para todos. Alguma coisa que poderia beirar a utopia, mas perfeitamente factível pelo poder político que você e seu partido detiveram por largo tempo.
Agora, perdido o ensejo de sua consagração como grande liderança de nossa história republicana recente, o operário-estadista, resta à população brasileira o desconsolo de esperar por uma era de dificuldades e incertezas. (o grifo é nosso)
Seu amigo, Tito Costa.”
Mais um amigo decepcionado com Lula e seu partido, o PT, que demorou para perceber que espécie de homem é o Lula. Espero que, com estas declarações de ex-amigos de Lula, quem ainda acredita nele repense. Espero, também, que o “Lava Jato”, entre tantos outros casos, sirva para que as palavras “ética" e "moral” voltem a figurar em todos os nossos negócios e atividades.
(Artigo escrito em 29/09/2015)
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