24/08/2015

O que estão fazendo com a nossa economia?

Ao ler, no Valor Econômico de 30 de abril, matéria sobre a nossa economia, de 2004 a 2014, assinada por Sergio Lamucci, correspondente de Washington, cai por terra todas as declarações do ministro da Fazenda, Guido Mantega, quando a defende. Confira um trecho dos dados divulgados do estudo do Boston Consulting Group (BCG): (Leia mais)


“A indústria brasileira sofreu uma perda substancial de competitividade na fabricação de manufaturados nos últimos dez anos. A alta dos salários e dos preços de energia e a valorização do câmbio aumentaram fortemente os custos de produzir no Brasil, tendência não compensada por ganhos expressivos de produtividade. Em 2014, fabricar manufaturados no país era 23% mais caro do que nos EUA, um salto drástico em relação a 2004, quando o custo da indústria brasileira era 3% menor”.

Segundo o relatório, os salários no Brasil mais do que dobraram na última década, período em que o câmbio teve valorização de 20% em relação ao dólar. A produtividade do trabalho, contudo, cresceu apenas 3%. O custo industrial de eletricidade subiu 90% e o do gás natural, cerca de 60%.

No relatório do BCG, o Brasil aparece como um dos países “sob pressão”, ao lado da China, Rússia, Polônia e República Tcheca. O grupo é formado por nações de economia “tradicionalmente de baixo custo”, cuja deterioração da competitividade na última década se deve a um amplo conjunto de fatores. Os EUA e México, por sua vez, são classificados como as “estrelas ascendentes”. O crescimento moderado dos salários, ganhos sustentados de produtividade, câmbio estável e vantagens no setor de energia explicam a crescente capacidade deles em competir com os demais.

Ainda é mais barato produzir manufaturados na China do que nos EUA, mas a diferença encolheu nos últimos dez anos, segundo o BCG. Hoje, a diferença é de apenas 4%.

Em resumo, o Brasil passou de exportador de produtos manufaturados, em 2004, a importador de produtos manufaturados, em 2014 (gestão Lula-Dilma).

Agora, vamos falar um pouco sobre o nosso mercado, especialmente sobre o setor sucroenergético, esquecido pelo governo desde 2008.

Transcrevo abaixo os últimos quatro parágrafos da entrevista concedida pela presidente da Unica, Elizabeth Farina, ao BrasilAgro, em 30 de abril, e quero parabenizá-la por contestar as declarações do ministro da Fazenda, Guido Mantega, divulgadas na segunda feira (28/04), quando ele tentou livrar as responsabilidades do governo.

“Acima de tudo, o governo precisa assumir, perante a opinião pública, que as políticas adotadas e mantidas para a área de energia representam verdadeiras bombas de efeito retardado, com elevado potencial para causar danos amplamente na sociedade, quando finalmente ocorrerem aumentos que vêm sendo represados. Antes mesmo que essas consequências ocorram, espera-se do governo mais transparência do que vem sendo demonstrado para explicar à população os reais motivos por trás desses impactos. Ao invés disso, o que se tem visto são esforços e declarações desenhadas para transferir a culpa para outros setores.

Estivesse o governo mais atento às informações encaminhadas sistematicamente, há anos, pela Unica, saberia que nunca, em nenhum momento, foi pedido ao governo, pelo setor sucroenergético, o aumento da gasolina. O setor pede, isto sim, que o governo resolva o problema que ele mesmo causou, com sua postura relativa à inflação, a de que é melhor ‘segurar’ os índices inflacionários controlando preços públicos do que enfrentar os reais motivos que causam a inflação.

Na visão da Unica, há muito tempo não há mais dúvida de que a gravidade da situação enfrentada pelos produtores de etanol tem raízes que levam diretamente a um conjunto de políticas públicas inadequadas adotadas pelo governo; políticas essas condenadas amplamente por especialistas e observadores de todos os matizes políticos e econômicos. É inadmissível que o governo federal continue insistindo em subsidiar a gasolina, priorizando um combustível fóssil em detrimento de outro limpo e renovável, produzido com tecnologia, máquinas, equipamentos e profissionais brasileiros. Mais grave ainda é não tratar com respeito empresários e trabalhadores do setor sucroenergético, que clamam por políticas públicas que devolvam a competitividade do etanol.

Se mantidos a teimosia e o equívoco do governo, seguirão cobrando um preço salgado da sociedade brasileira: a paralização dos investimentos para a expansão do setor sucroenergético e a destruição de milhares de postos de trabalho”.

Hoje, já são mais de 40 usinas de açúcar e etanol fechadas, mais de 30 entraram na justiça com pedido de recuperação e mais de 10 não vão moer na safra que se inicia.

Não são somente os produtores de cana-de-açúcar e os produtores de açúcar, etanol e energia, mas, também, as indústrias de base, voltadas para o desenvolvimento tecnológico do setor, que estão sendo prejudicadas com esta política desastrosa do governo. Podemos afirmar que o faturamento dessas empresas, nestes últimos anos, caiu para menos de 1/3 e a dispensa atinge mais de 50 mil trabalhadores.

Para finalizar, cito um trecho da entrevista de Roberto Rodrigues, ex-ministro da Agricultura e coordenador do Centro de Agronegócio da Fundação Getulio Vargas, concedida ao BrasilAgro em 29 de abril:

“'A gestão de Dilma Rousseff está conseguindo, com um só tiro, matar a Petrobras e o setor sucroenergético'. Para ele, o governo age com preconceito e viés ideológico quando o assunto é a indústria do açúcar e do etanol. 'Ela não gosta dos usineiros e isso impede de olhar o setor na sua real dimensão'”.

Mas ela deveria gostar, pois o setor sucroenergético é o que mais emprega trabalhadores e o que mais gera renda ao nosso País, além de contribuir com o meio ambiente.


(Artigo escrito em 19/05/2014)

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