28/12/2016

A conversão de um pecador

No dia em que foi celebrada a renovação de casamento de meus sobrinhos Carlos Augusto e Selma, fui presenteado pelo meu amigo Monsenhor Jorge Simão Miguel, celebrante da ocasião, com o livro “Confiteor”, de autoria de Paulo Setubal. Porém, antes de começar a ler a obra, fui saber o significado do seu título. (Leia mais)


Confiteor ou Confesso é uma oração penitencial com a qual nós, reconhecidos de nossos pecados, buscamos a misericórdia e o perdão de Deus. É uma oração que tem origem nos primórdios do Cristianismo. 

O texto abaixo é a forma completa da oração, introduzida no rito da missa no século XI: 

“Confesso a Deus Todo-poderoso, à bem-aventurada sempre Virgem Maria, ao bem-aventurado Miguel Arcanjo, ao bem-aventurado João Batista, aos santos Apóstolos Pedro e Paulo e a todos os santos que pequei muitas vezes por pensamentos, palavras e ações, por minha culpa, minha culpa, minha máxima culpa. Por isso, peço à bem-aventurada sempre Virgem Maria, ao bem-aventurado Miguel Arcanjo, ao bem-aventurado João Batista, aos santos Apóstolos Pedro e Paulo e a todos os santos que oreis por mim. A Deus, Nosso Senhor. Amém."

Na missa atual, esta oração é rezada de maneira abreviada, mantendo-se o costume tradicional de se bater no peito ao se recitar “minha culpa, minha tão grande culpa”, em sinal de humildade.

Voltemos ao livro. Seu autor, Paulo Setubal, foi advogado, jornalista, ensaísta, poeta e romancista. Nasceu na cidade de Tatuí-SP e foi membro da Academia Brasileira de Letras. Publicou inúmeros livros e poesias. Seu último livro foi o “Confiteor”, inacabado pois ele faleceu antes de terminá-lo. Nele, conta sua própria história sem exaltar seu sucesso profissional, mas, sim, suas dores e sofrimentos e a paz que encontrou em Deus (ele antes era impio e ateu). Sugiro a leitura da obra, na qual conta que perdeu o pai quando criança e que sua mãe ficou com nove filhos para cuidar. 

Neste artigo, transcrevo apenas alguns trechos do livro, com menções ao autor, sua mãe, seu professor Chico Pereira, sua esposa e sua filhinha de 12 anos.

De Paulo Setubal, quando ele decidiu escrever o “Confiteor”:

“(...) A minha vida, é certo, nada tem de grande, nem de brilhante, nem de singular, que mereça letra de fôrma. É uma vidazinha como mil outras. Mas pode ser que, não por uns pequeninos e frágeis êxitos que teve, mas pelos seus altos e baixos, pelas suas quedas e soerguimentos, pelo seu fadário terreno tão rudemente cortado, pelos pedaços agoniantes de que se entreteceu, pelas longas e longas horas passadas enfadonhamente na cadeira de lona, horas que a revolta antigamente amargava, horas hoje tão alegremente e tão levemente suportadas, pode ser que esta minha obscura vida de doente sirva acaso de lenitivo e de soerguimento a algum desconhecido irmão de infortúnio que, com o seu impotente desespero, arraste, por essas estações de cura afora, dias excruciantes de amargor e de sucumbimento. Essa ideia, pois, só essa ideia deu-me ânimo a que, vencendo desalentadoras canseiras, eu me atirasse – Deus sabe como! - a êste trabalho que os meus olhos não verão em livro. Eis porque, de hoje em diante, principio a lançar nestas fôlhas umas recordações. Recordações em que não haja preocupação de estilo. Nada de polimento de frase, nada de literatura. Que o meu pensamento brote espontâneo do coração e tombe sincero da pena. Que êste caderno não seja outra coisa senão a desenfreada confissão de como, através do sofrimento, eu me cheguei totalmente ao Cristo. Cheguei-me a Cristo e sou feliz” (fls.9 e 10).

Em 26 de outubro de 1936, ele escreveu a sua conversão: “Faz um ano, amigo, que me encontrei realmente com Cristo. Minha vida, quando eu o encontrei, havia sido golpeada pelo destino com selvagem ferocidade. Eu era um imenso sofredor. Um vencido. Trazia os olhos embaciados de lágrimas grossas. Hora dura foi aquela hora da minha vida. Naquela hora dura, contudo, o Cristo apareceu de improviso no meu caminho. Parecia um homem como os outros. Nada de extraordinário. Mostrava apenas o aspecto cansado de quem caminhava muito. Vestia-se com pobreza, tinha o ar doce, as mãos eram calosas, as vestes vinham empoeiradas do comprido jornadeio. Ele pôs em mim os seus olhos. Dois olhos grandes e complacentes. E quando os seus olhos, grandes e complacentes, pousaram nos meus olhos, que iam embaciados de lágrimas grossas, Ele parou de súbito em meio do caminho. Parou e disse: 'Bem-aventurados os que choram, porque êles serão consolados” (fls. 11 e 12).

Agora, destaco a atuação da esposa de Setubal sobre o livro anteriormente escrito, o qual ele queria encaminhar ao editor: “(...) Minha mulher começou a passá-lo a máquina. Minha mulher (é forçoso anotar aqui êsse detalhe) trabalhava no quarto de uma filhinha nossa, uma pequerrucha de doze anos, graciosa e loura, que estava nesse momento adoentada e de cama. E as cópias começaram a surgir. Um capítulo. Dois capítulos. Três capítulos. Quatro capítulos. Foi quando a minha mulher, com o seu marcado bom-senso, ao ver-me aparecer no quarto da filha: - Você vai publicar êsse livro? - Vou. - Pense melhor. Você mudou muito nestes últimos tempos. Você é hoje um homem crente, um católico praticante. Você vai mesmo publicar uma livro como êste? Pense melhor.” (fls. 21 e 22).

Apesar da insistência da mulher para que não publicasse o livro, Paulo resolveu consultar o Padre Z. Após contar a ele capítulo por capítulo o enredo da obra, o pároco não vacilou: “Deixe o seu livro trancado na gaveta, meu amigo. Não o publique”. 

Porém, o autor não deu tento para o que disse a sua mulher e o padre sobre a não publicação do livro. Decidido a encaminhar o material para o editor, Paulo foi ver sua filhinha no quarto dela. Sentado num divã e lendo o jornal, ela bruscamente interrompe sua leitura:

“ - Papai... - Que há, minha filha. A menina titubeou, ruborizou-se um pouco e, a mêdo, com a sua vozita clara e doce: - Eu queria pedir um favor Papai... Favor? Mas haveria favor que eu acaso recusasse à minha filhinha doente? Jamais! E fui logo exclamando com borbulhante vivacidade” (fl.28).

E daí segue o diálogo. A menina o pediu para que rasgasse aquele livro que estava escrevendo. Ele tentou defender a publicação, mas a filhinha venceu e o livro foi rasgado e queimado.

Agora, vamos falar do homem mais rico de Tatuí. É assim que o autor se refere a Francisco Evangelista Pereira de Almeida, o popular Chico Pereira, que foi seu primeiro professor e quem aconselhou sua mãe Maria Tereza de Almeida Nobre a lhe enviar para estudar em São Paulo. A ele, é dedicado o capitulo VI, da folha 51 a 62.

E então a mãe de Paulo vendeu o pouco que lhe restava, ajuntou o dinheiro e foram todos para São Paulo. Maria Tereza fazia serviços que jamais sonhara fazer: cozinhava, lavava e passava roupa, esfregava o assoalho. Tinha que fazer uma economia dura para sobreviver na capital. Ela e seus nove filhos. 

Finalizando, transcrevo alguns trechos do final de Paulo Setubal:

“(...) O ano de 1935 foi de muito êxito e muita glória humana, a que sucedeu muito sofrimento. Na véspera do Natal, exatamente quando os sinos anunciavam festivos a missa da meia-noite, Paulo é violentamente visitado pelo sofrimento; como se a Natividade de Nosso Senhor Jesus Cristo quisesse assinalar-lhe o nascimento interior do homem novo. Pressentindo a morte, chama o sacerdote. Êste abeirando-se do enfermo lhe diz: 'Dr. Paulo, aproveite os últimos momentos que Deus lhe dá, para arrepender-se de seus pecados...' E Paulo, mais tarde, contou o bem que lhe fêz o ouvir essas palavras. Foi então que, pensando seriamente no fim, êle sentiu a presença do Viajor amigo, de olhos suaves, que lhe tomou com ternura as mãos, quando estas se erguiam sofredoras, em uma volta sombria a anunciar talvez o fim de seu caminho. O que se passou nesse encontro, só Jesus e êle souberam. Teria sido talvez um reviver da cena sempre repetida, dos encontros de Cristo com aquêles caminhantes aos quais êle procurou, desgarrados nos atalhos empoeirados da Palestina,” (fls. 151 e 152). “(...) Noite de 3 para 4 de Maio. Consuma-se a longa e cruciada agonia. Nenhuma queixa, um sorriso para todos” (fl. 163).

Aqui estão alguns trechos do “Confiteor”. O livro na íntegra eu deixo para vocês lerem. É uma bela obra, que mostra como um impio e ateu chegou a Deus. Importante também é nunca se esquecer das palavras de Jesus Cristo, como “Eu sou o Caminho, a Verdade e a Vida”, “Eu não vim chamar os justos; eu vim chamar os pecadores” e “Bem-aventurados os que choram, porque serão consolados”.


(Artigo escrito em 28/12/2016)

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