11/01/2016

O que estão fazendo com nossas empresas?

Quando me aposentei da Dedini, em novembro de 2007, depois de ter dedicado 58 anos de trabalho à mesma empresa, o grupo estava em franca expansão, com o faturamento previsto para aquele ano de R$1,5 bilhão, com previsão de chegar aos R$3 bilhões nos próximos anos. O mercado estava aquecido, e o objetivo era atingir um bilhão de toneladas de cana-de-açúcar até a safra de 2012/2013, com a expectativa de atingir, até lá, a marca de mais de 200 novas unidades industriais para a fabricação de açúcar, etanol e geração de energia. (Leia mais)


Estávamos no caminho certo, uma vez que, na safra de 2010/2011, a produção de cana-de-açúcar tinha atingido em torno de 624 milhões de toneladas e haviam sido construídas mais de 100 novas unidades fabris. Faltavam 376 milhões de toneladas de cana e mais 100 novas unidades fabris para o grupo bater a meta.

Porém, o caminho começou a ficar tortuoso na safra de 2009/2010, quando o governo federal, sem estudar alternativas, segurou o preço da gasolina, que ficou abaixo da média internacional, resultando na quebra do setor industrial dos fabricantes de usinas para o setor sucroenergético e provocando prejuízos para a Petrobras de mais de US$25 bilhões. 

Assim, foram fechadas quase 100 empresas do setor e outras tantas pediram a recuperação judicial, como é o caso da Dedini S/A Indústrias de Base, o maior fabricante de bens de capital fornecedor do setor sucroenergético.

Um triste desfecho, já que foram anos e anos de muitos investimentos tecnológicos visando a inovação do setor sucroenergético. Conheça um pouco do que estou falando a partir de um resumo de cinco artigos publicados pela Dedini, que recebi do ex-vice-presidente de Tecnologia e Desenvolvimento, José Luiz Olivério:

"1. DRD – Dedini Refinado Direto (Dedini Direct Refined) - The refined sugar without a refinery. O DRD é um processo de produção de açúcar refinado diretamente a partir do caldo de cana-de-açúcar, sem passar pelo estágio de açúcar bruto, sendo obtido, portanto, com uma única cristalização. Os processos tradicionais exigem a produção de 2 estágios: do caldo ao açúcar bruto, na usina; e do açúcar bruto para o refinado, na refinaria. Por ser produzido diretamente na usina, denominamos o DRD como 'o açúcar refinado sem refinaria'. O DRD foi desenvolvido e patenteado pela Dedini, minimizando investimentos, custos e consumo energético, e disponibilizando para a usina um produto de maior valor agregado, o açúcar refinado.

2. Cogeneration in Brazilian sugar and bioethanol Mills Past, presente and challenges. O artigo muda a perspectiva de análise de cana-de-açúcar, efetuada através do seu conteúdo em energia em vez do peso em toneladas. O objetivo é maximizar o aproveitamento energético da cana-de-açúcar, em uma usina que produz açúcar e etanol, e ao mesmo tempo se obter a máxima energia excedente, na forma de bioeletricidade a ser fornecida à rede de distribuição. A solução é obtida em 2 estágios: a) como aumentar o excedente de bagaço para fins energético; b) como utilizar o bagaço excedente para maximizar a produção de bioeletricidade. São apresentadas as tecnologias que otimizam esses objetivos. São descritos casos reais, e é comentada a legislação que viabilizou institucionalmente a venda de energia elétrica excedente, gerando um novo negócio para as usinas. Ao final, é destacada a contribuição da Dedini como fornecedora de equipamentos e plantas completas de cogeração e térmicas e biomassa.

3. Integrated biodiesel production in Barralcool sugar and alcohol mill. O artigo descreve um caso real e inovador, o da Usina Barralcool, produtora de açúcar, etanol e bioeletricidade, à qual se integrou uma planta de biodiesel, tornando-a a primeira planta 4 Bios do mundo: bioaçúcar, bioetanol, bioeletricidade e biodiesel, produzidos em uma mesma usina. O artigo conceitua esta solução como uma resposta natural às inúmeras sinergias, agrícola e industrial, existentes na produção e processamento da cana e da soja, promovendo a integração energética, de processos e econômica. A usina 4 Bios Barralcool é apresentada como exemplo do 1º Estágio de integração, e são apresentados o 2º e o 3º estágios ainda mais avançados. Ao final, são detalhadas e quantificadas todas essas integrações e sinergias, destacando as vantagens econômicas obtidas. Este artigo recebeu o prêmio 'Best Paper' no XXVI Congresso Internacional do ISSCT – International Society of Ssugar Cane Tecnologists, Africa do Sul, 2007. 

4. The DSM-Dedini Sustainable Mill: a new concept in designing complete sugarcane mills. Este artigo apresenta um novo conceito para se desenvolver e projetar uma usina de cana: o da Sustentabilidade. Considerando-se a usina como uma macromáquina, um produto unitário, a usina foi reconceituada e reprojetada a partir das premissas e dos pilares da sustentabilidade: o econômico, o social e o ambiental. Foram consideradas tecnologias existentes, então aperfeiçoadas para otimizar o seu desempenho quanto à sustentabilidade, bem como se verificaram algumas carências que motivaram o desenvolvimento de novas tecnologias totalmente focadas na sustentabilidade. Para o desenvolvimento da USD foram utilizados 2 conceitos, otimizando o atendimento aos 3 pilares já referidos: Conceito Otimização - Máximo bioaçúcar; Máximo bioetanol; Máxima bioeletricidade; Biodiesel integrado; e Conceito Zero - Zero resíduos; Zero efluentes; Zero odor; Zero água de captação, produção de bioágua; Mínimas emissões.

A partir de um balanço de emissões de GEE-Gases de Efeito Estufa (principalmente CO2) nos setores agrícola e industrial, foram selecionadas e desenvolvidas tecnologias que promovem a máxima mitigação de GEE, e que são incorporadas à USD. Dessa forma, o efeito mitigador do etanol produzido pela USD, ao substituir a gasolina, é superior a 50% daquele etanol produzido por uma usina tradicional. Dessa forma, a USD pode contribuir decisivamente para a redução do aquecimento global que promove as mudanças climáticas.

Ao final, USD apresenta 6 Bio produtos: bioaçúcar, bioetanol, bioeletricidade, biodiesel, bioágua e bioform-biofertilizante organomineral. Pelo seu caráter inovador e por apresentar uma ótica totalmente nova à concepção e projeto de uma usina de cana-de-açúcar, a Dedini recebeu o convite para apresentar este 'paper' na sessão plenária do XXVII Congresso Internacional do 'ISSCT – International Society of Sugar Cane Technologists', 2010, México. Adicionalmente, o projeto da USD foi reconhecido ao receber o prêmio ECO 2009 da Amcham – Câmara de Comércio Brasil-Estados Unidos e Jornal Valor Econômico, bem como o Prêmio Von Martius da Câmara do Comércio Brasil Alemanha em 2010.

5. Expansion of the sucro-energy industry and the new Greenfield Projects in Brazil from the view of the equipmente industry. A partir de 2003, o setor sucroenergético do Brasil experimentou um robusto ciclo de crescimento, que se estendeu até 2011. Foram implantadas 117 novas usinas, elevando o total nacional para 441 unidades. Tendo em vista as importantes projeções de crescimento de demanda dos principais produtos da usina, açúcar, etanol e bioeletricidade, um novo 'boom' de implantação de novas usinas devem acontecer, e considerando-se a evolução das soluções adotadas ao longo do tempo nessas 117 novas usinas, bem como o atual estágio produtivo e tecnológico do setor e suas tendências, o artigo objetiva responder às perguntas: Como serão essas futuras usinas? Que tecnologias serão utilizadas? Qual a capacidade? Quais os produtos? Para obter essas respostas, o artigo conclui que os novos 'greenfields' serão projetados conforme 5 vetores de tendência da evolução quanto a produtos, capacidades e tecnologias. Cada um desses vetores é discutido, e exemplos reais de solução são apresentados para cada um e os motivos dessa escolha. Ao final, conclui-se que a indústria nacional de equipamentos está capacitada para atender a essa expansão, em todos os aspectos de capacitação e competitividade.”

Pois bem, encerro este artigo com perguntas sem respostas até agora: Como pode o governo federal deixar uma empresa com 95 anos de fundação, como a Dedini - entre outras tantas empresas na mesma situação -, que investiu maciçamente na inovação do setor sucroenergético, pedir sua recuperação judicial? E os prejuízos de mais de US$ 25 bilhões causados à Petrobras? É difícil entender que trata-se de uma medida extremamente equivocada privilegiar a gasolina, que é a maior poluidora da atmosfera, reduzindo drasticamente o seu preço a longo prazo, sem estudar outras alternativas? 


(Artigo escrito em 11/01/2016)

2 comentários:

  1. Em novembro/2007 a, então Ministra da Casa Civil, Dilma Roussef anunciava as grandes descobertas do pré-sal, em uma reunião na Petrobras onde estavam presentes o Presidente Lula, Sergio Gabrielli, Paulo Roberto Costa, Nestor Cerveró, entre outros.
    Neste anuncio a Sra. Dilma anunciou: "Deixaremos de ser um país que se esforçou a duras penas para alcançar a autossuficiência para nos tornarmos exportadores. Estaremos em patamares em que estão os países árabes". Este anuncio, conforme comentarista Gerson Camarotti foi feito pela Dilama, pois, a mesma era é a presidente do Conselho de Administração da Petrobras e será a candidata a eleição de 2010, o que ocorreu.
    Atualmente vemos que o país importada mais petróleo que em 2007, que a Petrobras é a empresa de petróleo mais endividada do mundo e, se não fosse uma empresa estatal, já estaria tecnicamente falida / recuperação judicial e alguns dos presentes se encontram presos, evidenciando o grande erro de planejamento e de gestão da política energética nacional, a qual foi direcionada a atender interesses específicos do Partido da Sra. Presidente.
    A política energética do país não pode ficar subordinada a decisões monopolistas, arrogantes, teimosas e autistas de uma pessoa ou de um grupo que só aceita quem tem o mesmo tipo de pensamento.
    Cumpre a nós, eleitores conscientes, valorizar o administrador prudente e com características de estadista, lembremos que este ano teremos eleições, a nível local é certo, mas, serão elas que mostrarão que o Brasileiro não pode e não será enganado por todo o tempo e não está disposto a entregar um cheque em branco até 2018.
    Votemos conscientemente e vamos convencer o maior número de pessoas a fazer o mesmo.

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    1. Prezado Paulo, você tem razão. O que precisamos é votar conscientemente, isto é, conhecer bem o nosso candidato. Para isso, sugiro que os eleitores submetam o nome do seu candidato ao site de pesquisas, como Google, para conhecer melhor quem ele ou ela é. Votando conscientemente, podemos ter a esperança de, no futuro, eliminar a corrupção em nosso País.

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