24/08/2015

Árvore genealógica

Recebi um texto pela internet sobre o diálogo entre uma mãe de “tempos passados” com um filho de “tempos modernos”, escrito pelo sensacional Fernando Luiz Veríssimo. Vejam o que acontece nesta modernidade: (Leia mais)


(filho) – Mãe, vou me casar!

(mãe) – Jura, meu filho?! Estou tão feliz! Quem é a moça?

(filho) – Não é moça. Vou me casar com um moço. O nome dele é Murilo.

(mãe) – Você falou Murilo, ou foi meu cérebro que sofreu um pequeno surto psicótico?

(filho) – Eu falei Murilo. Por que, mãe? Tá acontecendo alguma coisa?

(mãe) – Nada, não, só minha visão que está um pouco turva. E meu coração, que talvez dê uma parada. No mais, tá tudo ótimo.

(filho) – Se você tiver algum problema em relação a isto, melhor falar logo.

(mãe) – Problema? Problema nenhum. Só pensei que algum dia ia ter uma nora... ou isso.

(filho) – Você vai ter uma nora. Só que uma nora... meio macho. Ou um genro meio fêmea. Resumindo: uma nora quase macho, tendendo a um genro quase fêmea.

(mãe) – E quando eu vou conhecer o meu... a minha... o Murilo?

(filho) – Pode chamá-lo de Biscoito. É seu apelido.

(mãe) – Tá! Biscoito... Já gostei dele! Alguém com esse apelido só pode ser uma pessoa bacana. Quando o Biscoito vem aqui?

(filho) – Por quê?

(mãe) – Por nada. Só pra eu poder desacordar seu pai com antecedência.

(filho) – Você acha que o papai não vai aceitar?

(mãe) – Claro que vai aceitar! Lógico que vai. Só não sei se ele vai sobreviver... Mas isso também é uma bobagem. Ele morre sabendo que você achou sua cara-metade. E olha que espetáculo: as duas metades com bigode.

(filho) – Mãe, que besteira! Hoje em dia praticamente todos os meus amigos são gays.

(mãe) – Só espero que tenha sobrado algum que não seja, pra poder apresentar pra sua irmã.

(filho) – A Bel já tá namorando.

(mãe) – A Bel? Namorando? Ela não me falou nada... Quem é?

(filho) – Uma tal de Veruska.

(mãe) – Como?

(filho) – Ve-rus-ka.

(mãe) – Ah, bom. Que susto! Pensei que você tivesse falado Veruska.

(filho) – Mãe!!!

(mãe) – Tá, tá, tudo bem. Se vocês são felizes. Só fico triste porque não vou ter um neto.

(filho) – Por que não? Eu e o Biscoito queremos dois filhos. Eu vou doar os espermatozóides. E a ex-namorada do Biscoito vai doar os óvulos.

(mãe) – Ex-namorada? O Biscoito tem ex-namorada?

(filho) – Quando ele era hétero... A Veruska.

(mãe) – Que Veruska?

(filho) – Namorada da Bel.

(mãe) – Peraí! A ex-namorada do seu atual namorado é a atual namorada da sua irmã, que é minha filha também, que se chama Bel. É isso? Porque eu me perdi um pouco.

(filho) – É isso. Pois é, a Veruska doou os óvulos e nós vamos alugar um útero.

(mãe) – De quem?

(filho) – Da Bel.

(mãe) – Logo da Bel? Quer dizer, então, que a Bel vai gerar um filho seu e do Biscoito, com o seu espermatozóide e com o óvulo da namorada dela, que é a Veruska?

(filho) – Isso.

(mãe) – Essa criança, de certa forma, vai ser sua filha, filha do Biscoito, filha da Veruska e filha da Bel.

(filho) – Em termos...

(mãe) – A criança vai ter duas mães: você e o Biscoito. E dois pais: a Veruska e a Bel.

(filho) – Por aí...

(mãe) – Por outro lado, a Bel, além de mãe, é tia, ou tio, porque é sua irmã.

(filho) – Exato. E ano que vem vamos ter um segundo filho. Aí o Biscoito é que entra com o espermatozóide, que dessa vez vai ser gerado no ventre da Veruska, com o óvulo da Bel. A gente só vai trocar.

(mãe) – Só trocar, né? Agora o óvulo vai ser da Bel e o ventre, da Veruska.

(filho) – Exato!

(mãe) – Agora eu entendi! Agora eu realmente entendi...

(filho) – Entendeu o quê?

(mãe) – Entendi que é uma espécie de swing dos tempos modernos!

(filho) – Que swing, mãe?!?

(mãe) – É swing, sim! Uma troca de casais, com os óvulos e os espermatozoides, uma hora no útero de uma, outra hora no útero de outra...

(filho) – Mas...

(mãe) – Mas uns tomates! Isso é um bacanal de última geração! E pior: com incesto no meio.

(filho) – A Bel e a Veruska só vão ajudar na concepção do nosso filho, só isso.

(mãe) – Sei!!! E quando elas quiserem ter filhos...

(filho) – Nós ajudamos.

(mãe) – Quer saber? No final das contas não entendi mais nada. Não entendi quem vai ser mãe de quem, quem vai ser pai de quem, de quem vai ser o útero, o espermatozoide... A única coisa que eu entendi é que...

(filho) – Que...?

(mãe) – Fazer árvore genealógica daqui pra frente vai ser complicado!


(Artigo escrito em 07/08/2013)

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